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Caça à Espera

Se a caça no buraco é uma forma imediata de caçar, em que os progressos serão rápidos, a caça à espera, pelo contrário, leva mais tempo a aperfeiçoar até porque, exige mais conhecimentos do fundo e dos peixes. Trata-se de esperar que o peixe nos passe a tiro, atraindo-o emboscando-o, o que desde já, deixa entrever da dificuldade da empresa!

Todos vimos já que o peixe freqüenta certos locais ou passa por determinados sítios : quando mergulhamos eles desaparecem e deixam-nos, caçador ou observador, no fundo, a olhar para um deserto depois, viramo-nos para subir e vemos que esteve um peixe ou mesmo um cardume atrás de uma pedra, nas nossas costas, a observar-nos! Se os atraímos sem querer, porque não fazê-lo intencionalmente?

A primeira grande premissa é o perfeito domínio do gesto, ou seja, uma irrepreensível técnica de mergulho que nos permita movimentar como peixe na água, dominando o equipamento e a nós próprios naquilo que designamos por aquaticidade e que é só possível a mergulhadores treinados e experientes : sobriedade de movimentos e ruídos ao mínimo, o peixe deve ser atraído pelo invulgar do nosso volume e forma, não espantado por um comportamento que além de invulgar será alarmante. Lembremos que o peixe tem padrões de comportamento tão mais rígidos quanto mais simples ele é, o que quer dizer que serão sempre os mesmos e que convém observar e reter. Para isto concorre ainda, um equipamento discreto na cor que, como já disse, é um fator de aviso importante : fato e demais componentes de cor discreta e tanto quanto possível mimética ajudando o caçador a ser menos visível, o que estimula a curiosidade do peixe.

O segundo ponto é o local e a sua escolha. Consoante o tipo de peixe e de fundo assim vamos agir, é necessário observar o que é que o peixe anda a fazer, se voga, se se alimenta e neste caso se caça ou marisca. Logo daqui se depreende a dificuldade desta técnica que abriga a um bom conhecimento do local ou, pelo menos, dos movimentos do peixe com a maré e hábitos alimentares ou defesas. O peixe que voga, na época da reprodução, anda alheio e é de simples aproximação mas, menos de atrair. Se voga entre marés esperando a hora de comer ou em busca de refúgio pode ser atraído explorando-lhe a curiosidade ou cortando-lhe o caminho, uma vez descoberta a sua querença que é o caminho que habitualmente torna em busca de refúgio ou no seu deambular, uma rápida observação do sentido em que se desloca, para onde foge e de onde vem, impõe-se. Depois, é eleger um ponto de espera discreto e escondido, virado no tal sentido a aguardar! Inclusive, há que considerar as situações em que o peixe não se vê mas "anda por ali" e, o caçador sente-o. Sensação esta que não sou capaz de a explicar e, se calhar, ninguém o consegue, salvo a reconhecer das condições ideais de comida, abrigo e fundo, em geral, favoráveis que o caçador, inconscientemente, reconhece. Quando se alimenta, e sabemos que o faz preferencialmente na maré cheia, depende se marisca, isto é se se alimenta de organismos nas rochas / fundo ou se caça de emboscada ou ativamente. Aqui, o conhecimento intrínseco de cada espécie e local, é preponderante e apanágio de caçadores com experiência.

O peixe mariscador é o mais difícil de atrair. O ideal, será perceber qual o sentido da sua deslocação e escondermo-nos perto dos locais onde está a comida, esperando-o aí ou na aproximação da comedoria. O peixe será mais atraído pela nossa presença, vindo ele investigar um sempre possível competidor ou fonte de alimento. Se é caçador ativo como o robalo será a presa clássica desta técnica, se é caçador de emboscada, como o mero será mais difícil mas ainda vulnerável, pois estes são por norma muito mais territoriais. Uma boa espera, tanto mais proveitosa quanto experiência e domínio da técnica, como material adequado, começa pela escolha do local : Pode fazer-se a espera deitado na areia, simplesmente, mas os locais mais produtivos são os fundos rochosos, acidentados, e que permitam, simultaneamente, ao peixe evoluir escondido, portanto mais confiante, e ao caçador emboscar-se sendo este sentido por aquele mas não visionado e portanto suscitando curiosidade. A espera faz-se em termos gerais : sabendo que peixe esperamos, usando alguma técnica ou cuidado especial, ou generalizando se for o contrário, sabendo se o peixe voga, está abrigado ou se se alimenta, o peixe voga se o mar está agitado ou em época de reprodução, ou alimenta-se em cardume e plena água.

Ainda entre marés sobretudo na vazante, quando o peixe de água livre ganha o largo e o da pedra tende a entocar. Estará em estado de se abrigar se, a maré for baixa, e, atenção à presença de grandes ou "superpredadores", falo de robalos, anchovas, carangídeos, meros, corvinas, tubarões e até roazes, que fazem também entocar peixe. A profundidade influi no comportamento do peixe. Devemos virar as costas à corrente, o peixe tende a nadar contra ela, que lhe trás alimento e foge a favor o que o ajuda a escapar, portanto devemos tê-la "na cara".

Se houver uma massa rochosa importante ou algum acidente no fundo, colocamo-nos virados para fora deste. Se houver reentrâncias, falhas ou pedras isoladas, serão ótimos pontos para nos emboscarmos, inclusive debaixo das pedras. Tanto os altos como os baixos fundos são elegíveis, aqueles atingem-se mergulhando na vertical, escolhendo-os da superfície e através de meios mergulhos de verificação; estes mergulhando antes e deslocando-nos pelo fundo até eles, pois de outra forma o possível espadanar e agitação do "pato" será um fator de perturbação. As esquinas ou virar de pontas ou pedras submersas são outros excelentes pontos de espera : aqui especificamente se farão esperas, com o corpo meio erguido, virados para o azul, esperando o aproximar do peixe que por ali vogue, ou nos emboscaremos atrás da esquina, surpreendendo os peixes que não nos vêem. No posto de espera a imobilidade deve ser absoluta, bem como o silêncio, tudo começa à superfície; aproximação deve ser feita na maior descrição, a natação silenciosa, o pato perfeito. Nesta altura a água que entra no tubo e borbulha pode ser evitada, tirando o tubo da boca, ou mais fácil e prático, apenas abrindo-a sem largar o tubo, que se enche de água sem ruído nem bolhas.

Podemos optar por nos dirigirmos para o posto mergulhando na vertical ou melhor, mergulhando uns metros antes e nadando pelo fundo, sempre discretos. O braço flexionado, não agressivamente esticado com a arma em riste. Aliás, a arma e o seu empunhar são muito importantes : a espingarda nesta técnica deve ser entendida como fundamental, sobretudo porque o peixe dela desconfia. É agressiva e denunciadora, como tal deve ser disfarçada. Primeiro encostá-la ao corpo a não a separar deste, evitando ser como o rosto de um espadarte, depois encostá-la ao relevo como se fosse parte do fundo ou um seu acidente, é essencial imobilidade absoluta : os peixes decoram os acidentes "arbalete" tem de estar imóvel. Posso arriscar a informação de que se o peixe exige imobilidade na aproximação, ao entrar, tolera um pequeno movimento, a ajustar a pontaria, quando se afasta. Aliás o tiro é fundamental na caça à espera, ao contrário do geral em que se faz de instinto, este é quase sempre apontando, pedindo calma e pontaria. Como se faz? Pois, traçando uma linha imaginária ponta-do-arpão-peixe. Se percebermos que apontamos o dedo de uma forma absolutamente natural, e, que a espingarda é o prolongamento sete, os tiros serão óbvios. Aliás o tiro aqui é sempre apontado, pois o peixe deixa escolher e para que não se espantem os outros convém segurá-lo bem, senão, matá-lo logo. O tiro mortal é na cabeça, atrás do olho ou por cima da barbatana peitoral, na linha que acompanha a "espinha". Se pudermos esconder a máscara e olhos, melhor, há quem diga que os nos traem ou que o espelhar do vidro da máscara espanta o peixe, o certo é que algo há que por vezes dificulta a aproximação, na falta de vidro anti-reflexo, a mão a tapar a máscara é clássico. As barbatanas leves e que se levantam ou agitam com a força do mar são outro empecilho, pelo que é vantajoso usar pesos nos tornozelos nesta caça específica.

O lastro deve ser, no geral, superior ao usual, pois esta caça exigindo imobilidade é praticada normalmente a profundidades médias ou baixas e em zonas de movimento de água, convém estar pesado, e ainda, porque o fato deve ser mais espesso ou usar-se um colete. Sendo uma caça de espera em que a imobilidade é fundamental, o frio é de esperar e que, para além do desconforto, diminui a apnéia, que em termos físicos é quesito fundamental que é de prever. Esta técnica pede prolongadas permanências no fundo, imóvel, à espera que o peixe passe a tiro! A caça de espera pode realizar-se com maior proveito em condições de visibilidade fraca, pois o peixe tem de aproximar-se para ver; se a água estiver mais limpa, entra menos pois pode-nos estudar a maior distância, o que quer dizer : quanto mais limpa a água, mais e melhor, teremos de nos esconder. A finalizar, ainda, uma palavra para a arma, que deve ser preparada para tiros compridos e certeiros. Preferindo eu as de luxo ou super-luxo, com elásticos macios e progressivos, que provocam, menos desvios na pontaria e transmitem ao arpão maior energia de modo a ir mais longe. Este deve ser longo e leve, para tirar partido dos elásticos, em que a velocidade inicial é melhor e o comprimento influi na precisão na razão direta, além de diminuir a distância ao peixe. Se em local mais agitado, uma standard serve, sempre com a condição de ter elásticos progressivos e arpão longo. 

O arpão de 6mm deve ter a seguinte correspondência ao tubo : 

Arma Super Luxo - (Arpão 6,5 mm por causa do varejar) - Tubo 1,20 m e arpão 1,70 m

Arma Luxo - Tubo 1,0 m e arpão 1,50 m

Arma Standard - Tubo 0,90 m e arpão 1,40 m ou 1,30 m 

O carreto, é nesta circunstância de grande valia, caçando fundo ou a peixe de maior porte, enquanto que um fio ou mangueira atrás de nós é francamente de evitar. Para mim os grandes peixes de caça de espera ou "agachon" são : 

O Robalo - Caçador de água livre, a atrair com uma espera franca na espuma e água agitada, mesmo com meio metro de água, onde maior for o reboliço.

A Dourada - Nos bancos de mexilhão e outras comidas, em falésias e, em geral, vogando entre pedra e mar aberto.

O Pargo - Caçando perto de terra, um eterno desafio, normalmente fundo em grandes lajões ou calhaus, a pedir um mimetismo e imobilidade absolutos.

O Lírio - Vogando ou caçando, de formas nobre e como tal previsível, atraído pela sua nobreza , a indagar da nossa presença. Entra bem se nos destacarmos um pouco da pedra, soerguendo meio corpo.

Anchova - Voraz caçador, difícil, mas presa fácil da sua agressividade, sobretudo se nos escondermos totalmente e com algum cardume de peixe miúdo à volta.

O Enxaréu - que entra a um "agachon" perfeito de imobilidade.

As Salemas e Badejos - Numa perspectiva mais modesta são-no ainda como os sargos sobretudo se em cardume, quando se alimentam junto ao fundo ou na sua passagem.

As tainhas - Quando andam "amajoadas" isto é, em cardume, são particularmente atraídas e, afinal, todo e qualquer peixe, pois se até um tubarão capturamos ao "agachon"! 

Afinal, a caça é exatamente isto : emboscar e esperar a presa! Existe algo de novo aqui, debaixo do sol?



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