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Caça
na Água Turva
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Passo a explicar. Na nossa costa continental, contam-se pelos dedos das mãos as vezes que temos águas cristalinas (mais de 20 metros de visibilidade). Águas boas consideram-se aquelas com 10 a 15 metros de visibilidade e não acontecem muito mais vezes. Restam, assim, os dias de águas más, que são as mais freqüentes. Na minha opinião, para se obter uma boa forma, é necessário "fazer água", es ó dos dias bons e razoáveis que a nossa costa nos proporciona ao longo do ano, não são suficientes. Posto isto, e como não temos a sorte de ser banhados pelas águas mediterrâneas onde os atletas conseguem fazer 250 a 300 dias de água num ano, se quisermos ir ao mar umas 150 vezes, temos de nos sujeitar a muitos dias de águas más e a condições que não nos dão propriamente muito prazer. Falemos, então, da "prata da casa" : caçar com água suja. Existem zonas da nossa costa, que por vezes, são banhadas por vários tipos de água suja. Esta água não acontece devido à poluição, mas sim, ao fundo remexido e em suspensão provocado pela força domar, ou, correntes e ventos que trazem excesso de plâncton. Esta última situação pode ser mais freqüente na Primavera/Verão com as "nortadas" (N.W.). Os pescadores no Algarve costumam chamar-lhe "água de engordar sardinhas". São águas verdes escuras onde normalmente não se vê peixe quase nenhum. E não se vê, ou porque o peixe procura águas mais limpas, ou porque o peixe anda além do limite da nossa pouca visibilidade. O peixe sente confiança, detecta-nos e não se aproxima. Nestes casos, e em situações normais, o peixe mantêm-se mais em água livre, e raramente entoca. A nossa atenção tem de ser redobrada e apuramos a nossa audição, pois é outra maneira de detectarmos o peixe que possa andar em água livre. É evidente, que é um tipo de caça menos bonito e muito stressante, pois, qualquer coisa em suspensão, um vulto parado ou em movimento, momentaneamente, pode parecer o que não é. Uma das vezes que estava a caçar com o meu amigo e colega de equipa Luís Paixão, aconteceu uma situação engraçada. Era mais um daqueles fins de tarde com água suja. O Luís ia a caminho do fundo de um pesqueiro para fazer um agachon a uns robalos que por ali andavam, quando em contraluz nas primeiras frações de segundo, começou a vislumbrar uma silhueta levantada a 1metro do fundo. Ficou entusiasmado, convencido que era um mero.. para rapidamente perceber, que se tratava afinal da grande unha triangular de uma âncora antiga... Em situações de água suja o tipo de caça que se impõe é o agachon ou ao buraco, obviamente ás espécies mais sedentárias, como os Safios e Moréias, Abróteas, Rascaços e Meros. Neste caso, a bóia é uma peça do equipamento bastante importante pois, uma vez ancorada ao pé de um buraco ou na zona que queremos realizar o agachon é de extrema utilidade para não perdermos o local. Em mais de 90% das vezes, ás águas sujas devemos adicionar, quase, inevitavelmente, os fatores vento e/ou corrente. Sem bóia (a sua utilização é obrigatória por lei) só não perdemos o sítio se tivermos uma memória fotográfica instantânea para tirar duas marcas de terra assim que chegarmos à superfície. Caso contrário arriscamos a não encontrar o buraco que estava apenas a 10 ou 15 metros e que nos custou tanto a localizar. O fator profundidade, também é importante. Quanto mais perto da costa, mais limpa está a água e são maiores as possibilidades de ser ver mais peixe, principalmente no rebuliço da espuma. Estou a falar, é claro, nas situações de água suja, devido ao vento e correntes. No caso em que a água está suja devido à força do mar (ondulação), normalmente a visibilidade é melhor mais por fora, em baixas ou pedras mais distantes da costa. Em relação à caça profunda, é mais fácil caçar a 20 ou 25 metros, com águas limpas, do que a 10 ou 15 metros com 2 metros de visibilidade. É por isso que os nossos vizinhos no mediterrâneo são grandes profundistas, por normalmente terem mais de 20 metros de visibilidade ,o que não implica que se sintam muito à vontade, em condições que muitas vezes aqui apanhamos. Quanto ao material adequado, devemos usar armas de 75 ou 90 cm no máximo, e às vezes até a ajuda de tridentes e pentadentes, pois aumenta a precisão dos tiros rápidos, quase instintivos na maioria dos casos. Também há que ter muita atenção, não só, no que andamos à procura, como também, no que não queremos encontrar e que se pode tornar perigoso. É o caso de redes ou fios de pesca, perdidos ou não, no fundo. É também em situações de água suja (e não só) que ao deparar com um saco de plástico ou outro qualquer lixo, fico com uma certa raiva ao pensar que as pessoas encararam o mar como a lixeira da humanidade. A maior parte das vezes, os piores sítios são por baixo dos principais pesqueiros de pesca à cana. Será que a ignorância das pessoas é de tal ordem, ao ponto de não verem, que o lixo que deitam para o mar contribui para o empobrecimento e desertificação do Mar de que todos precisam e de que alguns gostam ? |