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Caça
na Espuma
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Nesta série de artigos sobre as técnicas de caça, temos vindo a seguir uma seqüência, em que vai aumentando a dificuldade e o domínio da técnica de mergulho individual e do material. Isto pressupõe, que o nosso conhecimento sobre o meio e peixes que são objeto do nosso interesse, para caça, fotografia ou observação, também vai aumentando. Depois das técnicas base, buraco e espera, veio a caça na descida, mais especializada e agora a caça na espuma. Começarei por dizer que a caça na espuma pede uma excelente capacidade física, à vontade e perfeito domínio das técnicas de mergulho em apnéia, como uma certa dose de atrevimento que vem do conhecimento do mar e não de uma qualquer coragem cega. É portanto um risco calculado. A caça submarina é um desporto de elevado risco, e deve ser como tal entendida, não por bravata, mas por uma questão de sobrevivência. Habituamo-nos já a procurar os peixes quando estes buscam alimento ou se refugiam, e, ainda neste caso assim será. Chamamos espuma à turbulência da água, dá-se quando esta encontra um obstáculo, normalmente na separação do ambiente terrestre com o marinho, seja a areia da praia, falésia, escolho, banco de areia, pedra, ou outros. Neste local a água é turbulenta e portanto oxigenada. O seu movimento constante torna-a rica em nutrientes que ali trás ou lava desse substrato. Assim, estes locais são ricos em organismos imóveis, vegetais e animais que servindo de alimento a outros, móveis, os introduzem na cadeia alimentar. Algas, limo, e plâncton alimentam-se dos minerais e tiram partido da exposição ao sol e do oxigênio. Estes seres vivos servem de alimento a vermes, búzios, burriés, lapas e ouriços. O plâncton é alimento de cracas, percebes, mexilhões e pequenos peixes, que por sua vez, são comidos por estrelas do mar, polvos, sargos, douradas, bodeões, cabozes e caranguejos. As tainhas e salemas rapam limo e algas, os robalos e pargos vêm à caça, os linguados (na areia) e rascassos (na pedra) esperam a sua vez ... e os meros vigiam todos .... As marés influenciam muito toda esta atividade, pela maior ou menor turbulência e ainda pela exposição ou acesso a toda esta fonte de alimento. Provocam ainda movimentação ou repouso, e gerem a atividade nestes locais. O caçador submarino deve, antes de mais, ser um conhecedor do meio e saber destas correlações bem, como interpretá-las. Depois há que ter consciência de que esta caça na espuma, é caçar pura e simplesmente na rebentação, local onde se dá o encontro na água com os tais obstáculos, o que, por vezes, é violento e arriscado. A força do mar é grande e desigual. De forma cadenciada as ondas seguem-se num crescendo de força até atingirem um determinado pico, depois invertem a sucessão, voltam a ganhar força e assim sucessivamente. Quando em condições praticáveis, devemos estudar esta sucessão e atuar após o pico, aproveitando a fase de menor força. Como as ondas conhecem regularidade, contam-se quantas surgem entre cada dois picos (sem esquecer que cada um destes conjuntos esconde um de muito maior violência) devendo-se estudar demorada e atentamente este vaivém. A técnica que se pretende caçar e daquilo que ele faz : Se é peixe que marisca, filtra ou rapa andará mesmo na rebentação, quase a seco. Deve-se mergulhar-se muito afastado e fazer-se a aproximação rasando o fundo, escondido, arpoa-se um se se conseguir, renunciar se não houver probabilidade de êxito, o que é importante para o não perturbar, e retorna-se pelo mesmo caminho. É essencial perceber que a aproximação deve ser discreta e dissimulada, pelo fundo, nunca em ataque direto e a descoberto. O peixe distraído pelo frenesi alimentar deve levar tempo a perceber o que sucede, antes de fugir. Pode fazer-se um compasso de espera para que a repetição do ataque não o afaste. Também como depois da sua fuga, e passado algum tempo poderemos ali voltar e achá-lo na mesma, alimentando-se incessante como a própria vida. Também na rebentação podemos achar peixe que se abriga, tirando partido do seu menor tamanho, sofrendo menos com a força do mar, enquanto pescadores, maiores não se arriscam. Levarão algum tempo a perceber a vantagem que o comprimento e alcance do arpão nos confere. De qualquer modo o nosso comportamento será idêntico ao anterior, salvaguardando que o peixe quando abandona o local por se sentir desprotegido, o fará por bom tempo e tão cedo não volta. Aquele que se alimenta fá-lo em bancos de percebe, mexilhão ou paredes cobertas de limo, o que se abriga estará em cavidades, anfractuosidades ou falhas. Temos ainda o caso dos predadores, estes vêm normalmente de fora, como nós fizemos, sendo boa táctica esperá-los em plena espuma, de costas para a pedra ou escolho. Eles vêm de todo o lado do mar aberto ou ao correr da rebentação, atacando quem anda a alimentar-se aí, inclusive serão atraídos pela nossa presença como competidores a investigar. Em paredes altas de falésias ou peões, atacamos vindo de fora e por baixo, procurando surpreender na espuma os que se alimentam, ou nas falhas os que se escondem. Ainda os predadores serão de esperar, em plena espuma vindos de fora e perto da superfície, escondendo-se nela, razão porque o nosso ataque por baixo será inusitado. Na costa, em zonas de baixa profundidade, seja areia ou pedra, vimos de fora a rasar o fundo, surpreendendo os mariscadores. Ou então ocorremos paralelo à costa e pelo o fundo, em plena rebentação, surpreendentemente sobretudo os caçadores. Não deixe de dar uma espreitadela debaixo das pedras pode encontrar algum grande robalo emboscado. Quando houver uma ponta, cabo ou pedra grande isolada, é bom vir por dentro, encoberto e assomar ao lado de fora, onde encontraremos na comedoria os peixes que referimos. Os peixes mais vulgarmente caçados a espuma são : Salemas (raspando limo em fundos baixos), tainhas (filtrando na espuma em redor de paredes altas), sargos e douradas (comendo mexilhão, tanto em fundos baixos como nas paredes). Os sargos comem também ouriços, lapas, percebes e até limos, refugiando-se em fendas ou acidentes da pedra em plena espuma. As douradas optam por fugir para fora. Os bodeões, comem mexilhão, ouriços e caranguejos, freqüentam fundos baixos e agitados, pouco a zona de ressaca nas paredes. Os robalos surgem em plena espuma, na mais agitada no ato da caça. Nas paredes, ás vezes aparecem emboscados debaixo das pedras em fundos baixos. As anchovas também surgem em plena espuma, sobretudo paredes altas e em concavidades ou reentrâncias. Por tudo o que aqui se disse, conclui-se que esta caça deve ser feita quando o mar está mais agitado, na maré enchente ou cheia e após grandes temporais (quando o peixe está com fome). É uma caça que pede força física e boa forma. Deve portanto ser praticada com cautela, com respeito e conhecimento pelo mar, por caçadores experientes e em boa condição. É uma caça dura mas bonita e até espetacular. O caçador progride pelo fundo, agarrando-se e "defendendo-se" com os acidentes do relevo, deixando passar-lhe por cima a força das ondas, que não devem apanhá-lo nunca à superfície. De preferência deve usar a própria força e o movimento da água para se deslocar, mais serpenteando que nadando. Isto é feito em esforço e apnéia repito! Faz-se todo o ano, mas pratica-se sobretudo de inverno quando o mar tem mais força, e o peixe mais dificuldade em vir à pedra alimentar-se. Depois dos grandes temporais, por vezes, verificam-se entradas ou "arribadas" de peixe. Quanto ao material, aconselho vivamente o uso de luvas para que o caçador possa agarrar-se bem e defender-se sem se ferir. Recomendo o uso de joelheiras. O lastro deve ser mais do que o habitual, pois caçando baixo e em locais agitados convém estar bem equilibrado e até um pouco pesado. As barbatanas devem ser menos longas do que as usadas em outras técnicas e sobretudo estarem bem fixas ao pé (é fácil descalçarem-se e pode ser perigoso). A arma tem de ser móvel e leve, o tubo de 25 é aconselhável. Quanto ao comprimento depende obviamente da distância a que se atira ao peixe, a situação pode mesmo pedir uma espingarda de "luxo" (1 m), porém dada a agitação da água parece-me que na maior parte dos casos a "standard" (0,90 m) é a arma eleita, no caso das fendas ou mesmo em fundos baixos com muita ressaca, a "júnior" (0,75 m). Os elásticos terão vantagem em ser dos rijos para tiros curtos e fortes, com maior velocidade inicial. |