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Caça na Praia

De entre as muitas formas que há de caçar, complementando as memoráveis jornadas, por mares dos Açores ou Moçambique, não deixarei, muito justamente, de lembrar as nossas caçadas que se aparentemente menos ambiciosas, não deixarão por outras razões de ser também memoráveis. A modesta saída da praia, pode constituir uma solução ótima e até revelar-se magnífica...Tentarei aqui dar algumas pistas.

Uma expedição destas começa de forma bem simples, com um mapa que nos informe e localize as praias : quanto mais afastadas e desertas melhor. Em qualquer mapa é possível ver se há peões, pontas, se a costa é rochosa e obter outras informações. Depois uma jornada no Portugal-fora-de-estrada, vamos no local procurar o que nos interessa, estudando a costa, pontos de interesse e acessos.

Como já sabemos a costa dá-nos uma idéia dos fundos e estes, uma previsão do peixe que podemos encontrar. Falésias com grandes blocos e amontoados de pedra partida, com reentrâncias, pontas e escolhos, tão comuns na nossa costa são o terreno de caça ideal, onde muitas vezes se localizam pequenas praias, atenção à maré! Praias extensas de areal nu, são suspeitas. Se houver falésia ou dunas podemos identificar a existência de manchas de pedra ou algas, sendo estas arrojadas à praia. Se não houver indícios ou meios de os verificar, o simples exame da zona de rebentação nos dará informações : Conchas de mexilhão é bom; amêijoas; berbigão; cadelinhas e outros bivalves do tipo; é mau. Ouriços e laminarias, são indício seguro de pedra. As vinagreiras com reservas, sozinhas, nada, juntas a outros, bom. Molhos de possidónios e zoostera, algas curtas e verdes, são mau indício. Quero com isto dizer, mau indício de inexistência de pedra ou está a ser muito rasa e dispersa, mas, há que contar com raias, cações e até corvinas, nas épocas próprias de início e fim de Verão, respectivamente; chocos; linguados e outros peixes chatos; polvos; os próprios bivalves que tanto atraem estes; santolas na areia e mesmo robalos.

Caso haja, na própria praia, aflorações de rochas, importantes com falhas e outros acidentes, vamos encontrá-las na água como na praia e aí achar os peixes de areia e de rocha : sargos, robalos e todo o nosso plantel habitual. Se as aflorações forem como folhas na vertical, de pedra escura e dura, partindo-se em finas placas, o fundo será mais fraco. Se forem como que grandes mesas de pedra mais mole e amarelada, haverá fortes probabilidades de as irmos encontrar sob a água, aquilo a que chamamos "lajões", que são estas rochas, semeadas na areia de forma solta ou em formações, mas a água cavou-lhe por baixo, enormes fendas e salões que são o paraíso para os peixes como sargos, robalos, safios, douradas, etc. Identificado o local e os pontos de interesse, convém estudar os pontos de entrada e saída, depois com mais ou menos escaladas e penar por areias, vamos à ação!

É uma técnica de caça que deve ser entendida como de busca, pois sendo a deslocação feita à barbatana, temos por um lado menos terreno para bater mas por outro lado, todo o interesse em fazê-lo metódica e exaustivamente, espreitando todos os buraquinhos, fazendo "agachons" em todo o relevo, não deixando de explorar todas as hipóteses; como a caça é uma atividade de insistência, em que esta torna a mestra, teremos os frutos de acordo com toda a preparação e empenho.

Depois de identificadas as dificuldades, como corrente e rebentação que marcarão o sentido de deslocação e regresso, caçaremos em ziguezague, cruzando todo o campo de caça. O equipamento não deve ser descurado, pois ele dependerá em boa parte o sucesso. Temos de o limitar por razões de esforço mas deveremos prever algumas situações : a bóia é indispensável para sinalização e agora como ponto de apoio e transporte de material e presas. Um saco de rede para marisco - lavagantes, navalheiras, santolas e bivalves são de esperar. Duas armas são de aconselhar, uma "júnior" para buracos e alga e conforme a previsão, uma "luxo" para água livre mas que pode ainda servir para grandes lajões, ou uma "standard" menos especializada mas que dá para tudo. As duas armas não só permitem uma caça especializada como ainda dobrar um grande safio ou se substituem por alguma avaria ou perda de arpão. Prefiro a combinação "luxo-júnior", mas se vemos que o fundo é predominantemente constituído por pedra partida e a caça no buraco de prever, a "standard" será de preferir à de "luxo". Na bóia colocar ainda um enfião para comodidade óbvia, e por via das dúvidas uma lanterna.

O restante equipamento será o normal, mas mesmo que a água esteja fria não aconselho nesta caça fato muito espesso nem colete, que obriga a mais lastro, o que se torna pesado e cansativo e ainda porque vamos nadar bastante o que provoca calor e é desconfortável. Nestas jornadas a presença de um companheiro é particularmente interessante e podem os dois usar uma só bóia, transportando tudo e puxada à vez.

Convém neste caso combinar bem a estratégia e o caminho a seguir, sem esquecer que quem leva a bóia marca o ritmo e o caminho.