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Caça nas Algas

Tentaremos aqui revelar um pouco desse mundo e das regras deste jogo tão apaixonante que á a caça na alga. Referimo-nos à vulgar laminária, Saccorhiza polyschides, que é uma alga castanha, comum no atlântico. Vive na zona limite da maré alta, podendo ficara seco na vazante, e encontra-se até 24 metros. Fixa-se na pedra por um disco e daí parte um talo, longo, que se abre e divide depois em longas tiras de um palmo de largura, que podem ir até mais de 2 metros de comprimento, assemelhando-se uma mão de longos dedos, úmida, escorregadia e maleável.

Forma campos densos e por vezes extensos, chegando a plantar-se em seixos, cobrindo assim zonas de pedra ou de areia. Forma-se em zonas de corrente ou calma, disso dependendo da sua densidade e comprimento, sendo menos densas e mais curtas nas zonas de maior hidrodinamismo. Como é fotófita e sensível à limpidez da água. Surge na Primavera, cresce, forma-se para lá do Verão, e normalmente desaparece com as águas de Setembro; em zonas abrigadas da costa pode encontrar-se em quase todos os meses, sendo, embora, uma planta anual. Do ponto de vista de caça, as que nos interessam particularmente, são as de fim de Primavera-Verão, quando estão pujantes e viçosas, bem fixas à pedra, designadamente : lajes corridas e com falhas horizontais, ou basalto escuro com falhas verticais, normalmente formando manchas, frente a praias largas e arenosas. Sem desprezar as manchas de alga nas zonas pedregosas, é sobretudo para ali que os peixes são atraídos e onde poderemos encontrar quantidade e qualidade. A alga fornece-lhes nesta época, abrigo para o descanso : sentem-se tranqüilos nestes esconderijos sem precisarem de buracos escuros e, gozam as delícias do Sol em recato. Também aí, se encontram mexilhões e um petisco muito apreciado : o caranguejo pilado, por vezes aos milhares, cobrindo os pés da laminária; em busca de refúgio ... acabam por atrair robalos e douradas. Ainda nesta época, as águas estão mais quentes e calmas, portanto mais limpas, o que é tão interessante para os peixes que buscam repouso e abrigo, como para nós!

Estas zonas são facilmente identificáveis no período em que á alga, por ficarem vestígios, sobretudo, discos e pés de alga fixos a depressões do fundo. Normalmente são fracos de peixe na época nua, mas convém tomar nota e visitá-las na época boa. Pelo que tenho observado, parece que o peixe procura aqui, fundamentalmente, abrigo e comida, o que é importante para determinar o seu comportamento e a forma de os localizar. A maré parece-me irrelevante, salvo se, deixar a alga a descoberto... direi que a melhor alga é a que, está sempre abaixo do nível mínimo da maré-baixa, ficando nos 2-3 metros, por vezes, na rebentação se o peixe anda a comer, ou em zona mais calma fora da rebentação, se repousa. Já a limpidez parece-me importante, pois o peixe com água limpa segura-se bem na alga, enquanto se a água estiver suja sente-se protegido e tende mais a sair para fora. Esta é, sem dúvida, uma caça de Verão, dias quentes, Sol, mar parado e água lusa. Sair da praia a preparar-se para uma caça preguiçosa e lenta, para percorrer o fundo, sem pressa, ao correr do tempo.. Encontram-se na alga os mais diversos peixes, são atraídos pelas mais diversas razões e até uns pelos outros. Os robalos são incontestavelmente os grandes freqüentadores, quer para descansar e apanhar sol, amolecidos pelas águas paradas e quentes, quer para caçar em emboscada. Seguem-se os sargos, também ao apelo da preguiça dos dias grandes de calmaria, e aí se sentem abrigados. A as douradas são outro freqüentador comum, dos três principais é o único que entoca, é menos freqüente, robalos e sargos fazerem-no nos campos de laminárias. Os badejos nadam por cima ou nos carreiros de massa de alga, tal como as tainhas que raramente penetram no seu interior, já as salemas evoluem junto aos pés, assim como os bodeões que parecem estar no seu quintal. Corvinas não são de admirar, espécimes isolados são muitas vezes encontrados, pousados na areia, nalgum carreiro, em total imobilidade. Os pargos são outro encontro de esperar, normalmente sob uma frondosa alga, camuflados com ela, com cuja cor se confundem, são muito difíceis de ver e normalmente damos por eles, quando se afastam lentamente, depois de arpoado um sargo ali mesmo ao lado ! As salemas, ou sargo-veado, são outro encontro habitual e quase certo, sobretudo na costa sudoeste, também parados, no meio da massa de alga, por vezes em pequenos cardumes de dois indivíduos grandes e quatro ou cinco pequenos e médios. Os cações, nos meses de Junho e Julho, volteiam nestas massas pelos carreiros de pedra ou areia, enquanto raias e ratões se enterram encostados a elas, do lado de fora. Podemos também contar com linguados e pregados , nos espaços de areia por entre as pedras e massa de alga, por vexes debaixo de uma fita de laminária, assim como pequenos cardumes de salmonetes !

É um mundo de duração limitada, que neste período se nos revela, com as suas regras que convém saber. Como já disse antes o peixe vem aos campos de laminárias basicamente para repousar, sentindo-se protegido, numa época em que tende a estar amolecido e menos ativo devido ao estado do mar, calmo e mais quente. Outros ali caçam, como parece ser o caso do robalo, dourada e pargo. Se notarmos que há pilado nos pés da alga, ou evoluírem pequenos cardumes de sardinha a rasar o topo da massa de alga; de notar ainda, a presença de bancos de mexilhões que atraem também polvos. Salemas e tainhas buscam alimentação nas algas e micro-organismos que se fixam nas grandes laminárias, bodeões e sargos alimentam-se de crustáceos, moluscos e vermes, bem como os salmonetes e linguados. Há uma transferência para estes locais que o caçador acompanha, devendo observar atentamente todas as indicações que lhe digam qual a postura do peixe, quais os espécimes, onde os encontrar e como atuar.

Fundamentalmente é : se a profundidade for pouca, nunca passar com o barco por cima do campo de caça, convém poitar por fora e aproximarmos a nado. Se a massa de alga é muito densa e fechada, será de menor interesse. Pode-se nadar e rasar o fundo, por debaixo da alga se houver espaço, ou, escondido nela só com a cabeça e a espingarda de fora e tentar atrair algum peixe maior que ande à caça, fora do campo da laminária. Este raciocínio é valido, para o caso de se ver peixe miúdo nadando a rasar a laminária e por fora desta. Se a alga é de densidade desejável, isto é, aquela que permite ver para dentro dela e evoluir pelo seu interior, então temos que estudar bem o caso e adotar a estratégia mais correta. Se se trata de manchas de alga a cobrir afloramentos de rocha, disseminadas pelo areal, em maior ou menor extensão, a melhor táctica é rodear cada mancha, sem entrar nela, por cima, começando por fora e descrevendo círculos ou cruzando-a conforme a sua importância. O primeiro objetivo será, localizar possíveis peixes grandes (robalos, alguma corvina ou pargo) que como já referi, estarão logo, na fronteira alga-areia (linguados e pargos), ou nos carreiros, abertos na massa de alga, pelos desníveis do fundo ou pela existência de línguas de areia que cruzam e intercalam a pedra. Nada-se sem ruído, lenta e compassivamente, deslizando, perscrutando o interior e ignorando os sargos, estes manter-se-ão por ali e são de menor importância. O passo seguinte é, escolher de cima, os pontos propícios como, vales, carreiros ou clareiras e, escondendo-nos na alga ou acidente no fundo, fazer "agachon", virados para a zona limpa, apontando para o centro da mancha : aí aguardar o possível aparecimento de um robalo. Esgotadas estas duas tácticas, vamos então procurar os sargos!

O melhor é começar por cima, sem os perseguir quando estão ainda na alga, deixando-os sentir-se seguros; quando deixarem de agüentar a nossa aproximação, vamos então entrar na alga e evoluir por entre ela, efetuando, ora uma aproximação, escondidos com os acidentes do fundo e as próprias algas, ora esperas. Como devem ter presente o "agachon" faz-se para os peixes que andam a alimentar-se, isto é, em atividade, enquanto que a aproximação, seja por fora ou por dentro da alga, é para o peixe estático. Se não adivinharmos movimento, nem detectarmos nenhum tipo de alimentação, praticamos esta última, se, pelo contrário há movimento, pequenos peixes, mexilhão, pilado e, estamos por exemplo, em zona de ressaca ou corrente, então o "agachon", entremeado de pequenas deslocações pelo fundo, para posicionamento e localização, impõe-se de imediato. Quando estamos em presença de um maciço de algas muito extenso e ininterrupto, vulgarmente cobrindo rocha, e aqui sim, com a ocorrência de falhas e buracos, deveremos optar uma táctica polivalente , que nos permita averiguar o que andará o peixe a fazer. Convém notar, que as horas se Sol alto, os robalos parecem gozá-lo, nadando logo por baixo da camada de algas, em movimentos lentos como que em passeio. Os sargos estarão estáticos em pequenos cardumes, também aflorando o topo do campo de laminárias : poderemos localizá-los sobrenadando o campo. De igual modo ao cair de noite, virão em busca de guarita , ficam mansos e estáticos, exigem golpe de vista atento e experiente, ou sorte, quando algum ligeiro do mar e alga os descobrem na sua imobilidade. Fora destas duas ocasiões, o ideal é cruzar o campo de caça, buscando por cima o peixe parado, se a visibilidade o permite. Se percebermos que está em movimento, vamos entrar na alga a tentar atraí-lo com "agachons" nos sítios propícios e alternar com a evolução pelo meio da alga e fundo, tentando a aproximação sempre que a densidade e visibilidade o permitam. Na alga densa, o peixe está menos em movimento, tendendo a deslocar-se por ela se perseguido ou inseguro. Obviamente que a deslocação do caçador se faz na zona mais aberta da alga que é junto ao pé, ou, no caso do talo ser curto ou se a densidade for maior, pelos vales e carreiros já descritos. Julgo que as horas da manhã até ao meio-dia, são as melhores para encontrar pargos e corvinas. Localizada alguma toca ou falha, podendo perceber, ou não, se está ocupada, convém marcar bem o local. Devemos dar uma volta em redor, para caçar o peixe que ande por fora, e, tentar entocar algum, para depois irmos então caçá-lo aí. Normalmente, os buracos estarão vazios, denso só ocupados depois de caçarmos, exceto, no caso das douradas que, todavia também se encontram abrigadas da alga, e dos pargos que gostam especialmente de falhas verticais. As salemas, tirando partido das riscas verticais e da cor que as mimetizam perfeitamente n4este meio, gostam do mais cerrado, mas estão muitas vezes à sombra de uma solapa ou pedra especada entre duas, sempre com amplitude, como quem está debaixo da ponte. Se camufladas na densidão são mesmo difíceis de ver.

Resta dar alguns conselhos sobre o equipamento a usar : as armas devem ser preparadas para tiros curtos, que requerem força imediata e velocidade inicial : aconselho os elásticos rijos, tipo dinamite ou os megaton. O tamanho mais conveniente será o das "júnior" ou "standard", com tubo de 70 a 90 cm, e arpão não superior a 1,20 m, para melhorar maneabilidade. Para os tiros dados por cima, ou para os sargos, uso muito o pentadente. Geralmente pode usar-se o tridente, sendo o arpão taitiano também eficaz, com a vantagem de segurar melhor a tal corvina !

A faca deve colocar-se no interior da perna para não empeçar na alga. Como o uso de bóia é problemático, aconselho para as aflições, uma pequena bóia feita com flutuadores de esferovite, redondos, ou com duas pequenas bóias de rede ou aparelho, unidas com araldite e uma caneta ou tubo plástico, rígido, de pequeno diâmetro e uns 10 cm de comprido, onde enrolaremos uns metros de fio fino, de pesca, e uma chumbada de 100 ou 150 gr. Entala-se no casaco ou cinto se necessário solta-se e desenrola-se de imediato, sozinha, temos assim a localização de emergência!

O tubo respirador deve ser anatômico, dos que envolvem a cabeça e se fixam à máscara na nuca. A lanterna deve ser colocada atravessada na rabeira do fato, pela frente, estando segura e à mão, sem empeçar a nossa progressão discreta pelo meio da alga. A máscara inteira, denominada na gíria de "aquário", de grande visibilidade e dada a pouca profundidade em que se efetua esta caça, é a mais adequada. Se o fato se confundir com a alga, melhor. Aconselho camuflados, verde amarelo, ou caqui.

As barbatanas muito longas, rígidas e de cores vivas são de evitar por dificultarem os movimentos e espantarem o peixe.



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