Reportagens Caçadores do Azul 1
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CAÇADORES DO AZUL

Imagine-se a flutuar sobre a superfície do alto mar enquanto contempla os reflexos das profundezas. Atuns gigantes de barbatana amarela (Yellowfin Tuna) e os velozes Wahoo são as suas presas. O nosso único equipamento é o material dos mergulhadores em apnéia , uma faca e uma espingarda com grande potência. Por baixo, cardumes de peixe miúdo passam velozmente engolindo apressadamente plâncton enquanto esquadrões de tubarões castanhos nadam vagarosos por ali. A falsa calma não é mais do que um descanso entre violentos acessos de selvajaria porque um animal come o outro, na infinita cadeia de depredação do oceano.

Bruscamente, o peixe miúdo dá sinal de alarme e junta-se como se fosse um único ser vivo. Como os peixes assustados formam uma bola compacta e auto-defensiva, inspiro profundamente e movo-me de mansinho caindo livremente no azul à procura do motivo que tanto receiam aqueles peixes. Deslizo em direção ao predador, o "wahoo" prateado em forma de torpedo. Quase imóvel, só a tênue inclinação das minhas barbatanas controla a descida em direção aos peixes mais velozes do oceano. A espingarda vibra, o tiro é real e num instante o "wahoo" de 20kgs. vai rapidamente para a superfície e salta em liberdade. Os tubarões reagem como se tivesse soado uma campainha para o jantar. Nadam a uma irregular alta velocidade e procuram fazer saques. Puxando freneticamente o fio do arpão, a minha única oportunidade de recuperar o peixe intacto é puxá-lo depois da perseguição dolorosa dos tubarões antes que um deles dê a primeira dentada e comece o frenesim alimentar.

Uma vez consumido o peixe, os tubarões excitados freqüentemente procuram dar outra dentada na única fonte alimentar que resta na água, o caçador do azul. Quem são estes caçadores do azul que evitam material de mergulho com escafandro autônomo e nadam, quase nus, com tubarões, nas águas selvagens do ambiente menos perturbado existente na terra. A caça no azul é uma elementar viagem ao passado, um tempo em que as criaturas selvagens governavam. Já não se pode subir a uma montanha bastante alta ou entrar numa selva bastante profunda para encontrar animais a comportarem-se nos seus antigos rituais de caça e sobrevivência e comparar com os animais selvagens dos oceanos de hoje. Contando com cerca de 10.000 entusiastas em todo o mundo, estes apneístas aventureiros sabem que o seu método de caça é a maneira ambientalmente mais aceitável de capturar peixe. Porque eles avaliam cada tiro, as suas capturas são limitadas a muito poucos troféus de peixe em completo desenvolvimento.

Uma viagem típica de 10 dias, com seis mergulhadores, poderá produzir uma meia dúzia de peixes apanhados por engano. Numa recente viagem à ilha isolada, vulcânica, de San Benedicto, a um dia de viagem de barco do sul do Cabo San Lucas, México, juntaram-se a mim quatro entusiastas da caça no azul: os americanos, Gerald Lim, Ron Mullins e Tom Murray e bem como o australiano Greg Pickering. Estes homens, todos no auge da sua forma física, ansiavam por esta viagem há mais de um ano. Durante dez dias mergulhávamos oito a dez horas por dia, até ao pôr-do-sol. Os nossos mergulhos mediavam entre 1 minuto e meio a profundidades de 30 metros. Porque o tempo de recuperação à superfície é tão pouco, não sentíamos a falta de escafandro autônomo passávamos cerca de 40 minutos de cada hora debaixo de água.

Os nossos corações aceleram à medida que deslizamos na água azul sem fundo. Multidões de aves marinhas de gritos agudos, chocando com a água e pequenos "sinais" vermelhos vistos no quadro do sonar dizem-nos que os atuns essencialmente migratórios estavam ali. Em alguns minutos conseguimos acalmar as nossas pulsações. Isto quando sentimos a direção da corrente e procuramos um corredor de peixe "fish street", uma fronteira artificial no mar que o peixe miúdo percorre enquanto sobe a corrente desde os seus lares rochosos. É nesta borda de peixes nervosos que nós esperamos encontrar os grandes peixes a patrulhar. "Estou pronto!" grita o australiano. Greg foi o primeiro a encontrar e arpoar um "yellowfin" atum. Greg debate-se com o peixe em fuga, lutando com os seus 45kgs de puro músculo contra o arpão e a extensão do fio do mesmo. Ele está preocupado com a crescente bola de sangue e as vibrações do agitado peixe. Os tubarões juntam-se por baixo. Embora o Greg saiba que o tempo é importante, ele não pode deixar de fazer uma pausa por um segundo, para a avaliar da sua presa, para apreciar o esplendor das cores do arco-íris irrompendo das barbatanas do peixe à luz da superfície. Trabalhando com uma velocidade cautelosa, Greg finalmente amarra com firmeza o peixe ao pequeno barco enviado para o ajudar. Desta vez Greg teve sorte, mas os outros perderam o peixe e o equipamento.

         

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