Conhecida desde o meio
do século passado, a doença descompressiva ganhou uma aterrorizadora
fama e uma série de apelidos, muitas vezes mal interpretados pelos mergulhadores
recreacionais. Com incidência baixíssima nesta modalidade de mergulho
(A DAN - Divers Alert Network - estima sua incidência em apenas 1 caso
para mais de 3000 mergulhadores), merece ainda muito cuidado e respeito.
Afinal de contas, serve pouco de consolo ser a pessoa afetada entre
as mais de 3000.
Breve História
Os primeiros relatos
da enfermidade surgiram no meio do século passado, em trabalhadores
de minas pressurizadas. Apenas em 1878, o fisiologista francês Paul
Bert compreendia e preconizava alguma forma de tratamento para a moléstia.
Neste interim alguns apelidos surgiam. Primeiro, como Mal dos Caixões,
pela sua ocorrência em trabalhadores de caixas pressurizadas, usadas
para permitir que trabalhassem a seco em leitos de rios. Depois, como
Grecian BENDS, pois trabalhadores de caixões de uma determinada ponte
comparavam a postura que os afetados apresentavam, com a maneira de
caminhar das mulheres da moda, na época. Com mergulhadores, a luz só
surgiu no início do século 20, quando o brilhante fisiologista escocês,
Dr. John Scott Haldane criava as primeiras tabelas de mergulho, permitindo
que mergulhadores da marinha inglesa fizessem imersões até 60 metros
de profundidade, sem consequências descompressivas.
Desde então houve uma
série de evoluções tecnológicas e de estudos sobre as tabelas, alem
de um crescimento importante da atividade. Com o surgimento do mergulho
técnico, vêm surgindo um aumento de casos de doença descompressiva,
mas a natureza deste tipo de mergulho difere bastante do mergulho recreacional
e não abordaremos estes aspectos nesta matéria.
O Que Causa
O que quase todo mergulhador
sabe é que a doença descompressiva é causada por bolhas de nitrogênio
que se expandem no sangue ou nos tecidos do corpo, causando lesões em
graus variáveis. Podemos dizer que não há doença descompressiva se não
houver formação de bolhas. Mas não podemos dizer o contrário, pois muitas
vezes se encontram bolhas no sangue venoso do mergulhador (percebidas
por um tipo de ultrasonografia) sem que ocorra qualquer moléstia.
De maneira simples, vamos
entender como as bolhas surgem. Segundo a lei de Henry, “A solubilidade
de um gás num meio líquido é diretamente proporcional à sua pressão
parcial”. Traduzindo, quanto mais pressurizado estiver o gás, mas solúvel
ele fica. Quando mergulhamos, a medida que descemos, vamos dissolvendo
nitrogênio no sangue e nos tecidos, em razão direta da pressão, e em
consequência, da profundidade. Quando começamos a subir, a pressão diminui
e o gás vai ficando menos solúvel, e pode haver a formação de bolhas.
Para evitarmos a condição, usamos as tabelas de mergulho, que procuram
prever a diminuição de pressão de maneira gradual e aceitável, sem que
se formem bolhas.
A Absorção e a Eliminação de Nitrogênio
Quanto mais descemos,
respiramos mais gás sob pressão. A dez metros de profundidade, respiramos
o dobro de pressão de ar, e em consequência, de nitrogênio. O nitrogênio
é absorvido pela respiração, daí para os alvéolos, para o sangue e para
os tecidos. A maneira com que o nitrogênio é distribuído pelo corpo
envolve três fatores: difusão, perfusão e afinidade.
Difusão:
é a tendência de um gás passar de uma área de maior concentração para
uma área de menor concentração, em razão da diferença (gradiente) de
pressão, até que haja equilíbrio. Para exemplificar, vamos imaginar
nossos alvéolos pulmonares (usaremos apenas um) e a circulação capilar
à sua volta:
- Assim que atingimos
10 metros, o alvéolo passa a receber o dobro de pressão de N2
1o desenho
- Começa a haver difusão
de N2, do alvéolo para o sangue 2o desenho
- A medida que o tempo
passa, o gradiente de pressão de N2 entre os dois via diminuindo, assim
como a velocidade de difusão. 3o desenho
- Se o mergulhador ficar
muito tempo nesta profundidade (pressão), as pressões se igualam. O
corpo está saturado. 4o
desenho
Quanto mais fundo, mais
gás é absorvido. Se um mergulhador ficar muito tempo numa dada profundidade,
seu corpo irá se saturar de nitrogênio. Ou seja, seu corpo já recebeu
todo o nitrogênio possível, para aquela dada profundidade. Neste momento,
tudo que entra saí.
Perfusão: é a quantidade
de sangue que cada tecido recebe, ou seja alguns tecidos recebem muito
sangue enquanto outros recebem pouco. Uma vez difundido dos alvéolos
para o sangue, o N2 é difundido do sangue para os tecidos. Cada tecido
vai receber sua carga de nitrogênio também em função da perfusão, ou
seja a quantidade de sangue que ele recebe.
Afinidade: para complicar
um pouco, ainda existe um terceiro fator, quanto de afinidade um determinado
tecido tem por N2. Isto é basicamente dado pela quantidade de gordura
no tecido. Mas não conclua daí que a obesidade, por si só, é um fator
de risco para a doença descompressiva.
E eliminação ocorre por
processo inverso, começando com diminuição da pressão de nitrogênio
na respiração, nos alvéolos, no sangue e nos tecidos, até que voltemos
à mesma pressão do início do mergulho. Como já mencionado, esta eliminação
deve ser gradual, para que não ocorra uma diferença de pressão muito
grande entre o N2 dos tecidos, sangue e respiração, com consequente
formação de bolhas. É importante lembrar que a eliminação total do nitrogênio
leva um tempo adicional, após a volta
à superfície. Embora existam regras para voar ou subir a altitude após
mergulhos, as mesmas vêm sendo reestudadas pela DAN.
Como a Doença se Apresenta
Os sinais e sintomas
de doença descompressiva podem se iniciar desde 10 minutos até muitas
hora após a volta à superfície, e eventualmente dias (mais ligado a voar após
mergulhar). Costumava-se classificar a doença da seguinte forma:
DD Tipo 1 – Moderada,
com dor em junta isolada, vermelhidão de pele com coceira, em geral
no tronco ou abdômen, ou inchaço de gânglio linfático.
DD Tipo 2 – Mais grave,
com perda de sensibilidade, que pode evoluir para de força e até paralisia
de membros, de forma simétrica (os dois braços, as duas pernas, etc...),
vertigem, sintomas respiratórios graves e outras formas mais raras.
Hoje sabemos que o quadro
pode se apresentar com ambos componentes, e que mais importante do que
classificar, é socorrer e tratar adequadamente a condição.
Fatores de Risco
Fugindo um pouco do que
se diz tradicionalmente, o principal fator de risco não está ligado
à saúde, mas sim a mau comportamento do mergulhador. Uso de tabelas
ou computadores nos limites, velocidades de subida exageradas, má hidratação
anterior e posterior ao mergulho, e desrespeito às regras de vôos após
mergulhos estão entre erros comumente encontrados no mergulho recreacional.
O mergulho descompressivo por si só tem margem de risco diferente e
outros fatores envolvidos.
Outros fatores inerentes
à saúde e hábitos de vida devem ser considerados:
- Idade: a medida que envelhecemos, nossa circulação e
hidratação dos tecidos é menor, bem como aumenta a proporção de gordura
na coluna vertebral. Pessoas mais velhas devem ser mais sábias e conservadoras
na abordagem de seus mergulhos.
- Hidratação: lembre-se que perdemos
líquido durante o mergulho (pelo ar seco do cilindro, e porque temos
aquele reflexo de urinar assim que pulamos em água fria). Um sangue
bem hidratado elimina melhor o N2.
- Doença: Se você está doente,
não deve mergulhar.
-
Exercício excessivo, imediatamente antes, durante ou depois do
mergulho: Aumenta a quantidade de possíveis sítios de nascimento de
bolhas, ou seja, micronuclei de gás inerte (hoje acredita-se que as
bolhas nasçam de núcleos de ar pré formados em nossas células a medida
que se movimentam). Pode ainda gerar maior absorção de N2 durante o
mergulho.
-
Tabagismo, que deve ser evitado por qualquer mergulhador: Eleva
o nível de gorduras no sangue.
-
Frio durante o mergulho: alem de tornar o mergulho desconfortável,
causa uma constrição dos vasos da pele, diminuindo a circulação nesta
área, o que irá atrasar a eliminação de N2.
-
Alimentação gordurosa horas antes do mergulho: pode elevar o
nível de gorduras sanguíneas.
-
Drogas e Medicações, que reduzam a função respiratória e/ou circulatória
devem ser evitadas. Procure orientação médica a respeito.
-
Bebida alcoólica: Causa desidratação e aumenta a fração de gordura
no sangue.
-
Condicionamento físico e obesidade: pessoas com melhor condição
física e que mergulham melhor, respiram e absorvem, normalmente, menos
N2 do que pessoas mal condicionadas para a atividade.
Embora um bom condicionamento físico seja importante, existem excelentes
mergulhadores um tanto sedentários e alguns atletas que, por má técnica
de mergulho, gastam energia desnecessária e absorvem N2 em excesso.
Parece que pessoas obesas, mas condicionadas para o seu peso, não têm
maior risco de doença descompressiva.
Tratamento
Retirado
do capítulo sobre doença descompressiva, do manual da U.S. Navy: “A doença descompressiva resulta
da formação de bolhas no sangue ou nos tecidos, e é causada pela eliminação
inadequada de gás dissolvido, após um mergulho ou outra forma de exposição
hiperbárica.. Qualquer forma de doença descompressiva deve ser tratada
com recompressão.”
Para Socorrer
Os
primeiros socorros para a doença descompressiva incluem uma série de
procedimentos, sendo importante lembrar que qualquer suspeita deve ser
tratada como tal:
1.
Forneça oxigênio.
2.
Mantenha a vítima deitada, em posição de recuperação.
Lado esquerdo para baixo???
3.
Tente manter a vítima confortável.
4.
Se a vítima estiver consciente e sem problemas urinários,
ofereça líquidos isotônicos.
5.
Contate o serviço de medicina hiperbárica ou de evacuação
médica mais próximo.
Condições a evitar:
1.
Nunca considere sintomas pouco importantes. Presuma que
qualquer coisa fora do normal pode ser um sintoma causado por bolha.
2.
Nunca tente recomprimir a vítima na água. Isto só pode
agravar a situação. No mergulho recreacional não há equipamento adequado
para tal.
3.
Sempre use bom senso e aborde mergulhos de forma conservadora.
Permita uma grande margem para erros quando se expondo (e a outros)
a problemas potenciais com bolhas.
Prevenção
Seja um mergulhador conservador
quanto ao uso de tabelas e computadores. Evite ou minimize os fatores
de risco. Hidrate-se bem antes e depois de mergulhar. Faça sempre uma
subida lenta e uma parada de segurança ao final de cada mergulho. Lembre-se
que a parada de segurança oferece três vantagens básicas: diminuir a
velocidade de subida, especialmente nos metros finais; permitir que
você dê uma olhada na tabela para se certificar que não excedeu os limites
de não descompressão; e desacelerar a velocidade de eliminação de N2.
|