O que você sabe e esquece e o que você
provavelmente não sabe: "Mamãe, fui naquela escola de mergulho massa,
desci um metro e meio de profundidade e você não vai acreditar, tive
um barotrauma do ouvido médio de terceiro grau" Imagine você a cara
da mãe, assustada com este tremendo palavrão. E provavelmente a grande
maioria dos mergulhadores, porque barotraumas incomodam uma barbaridade
e são responsáveis por uma série de cancelamentos de mergulhos.
Curiosamente, a maioria destes poderia facilmente ser evitada, com técnica
correta e algumas precauções. O termo barotrauma significa traumatismo
(trauma) causado pela pressão (baro). De uma maneira grosseira, podemos
classificá-los em barotraumas de descida e de subida, algumas lesões
podem ser geradas por problemas na descida e na subida. Antes de descrever
os barotraumas é importante relembrar que nosso corpo sofre a maior
variação de pressão nos metros mais próximos à superfície. Por exemplo,
ao descer da superfície para 10 metros, no nível do mar, a pressão dobra,
de 1 ATM para 2 ATM. Quando vamos de 10 para 20 metros, a pressão aumenta
apenas um-terço, de 2 para 3 ATM e assim por diante. Concluimos daí
que o maior cuidado com a pressão deve ser tomado nestes metros iniciais.
Outro conceito importante a relembrar é que barotraumas só ocorrem por
compressão ou expansão de espaços com gás, pois líquidos não são compressíveis.
O barotrauma mais comum é o barotrauma do ouvido médio, que é um compartimento
aéreo, localizado para dentro do conduto auditivo externo. Quando descemos,
o aumento da pressão da água começa a empurrar a membrana do tímpano,
que delimita o ouvido médio. Se não equalizamos corretamente, esta membrana
pode ser machucada em graus variáveis, desde um quadro simples com dor,
mas sem lesão na membrana, até o extremo com a sua ruptura.
Para a sua prevenção devemos, desde a superfície, equalizar esta pressão,
antes que surja dor. Talvez esteja aí o maior erro técnico relacionado
à equalização, as pessoas costumam esperar a dor ou sensação de pressão,
para iniciar a equalização. Uma vez que surja um gradiente de pressão
e dor importantes, há uma musculatura da tuba auditiva que se contrai,
impedindo a continuidade do processo. Lembre-se, equalize desde a superfície,
equalize com frequência e caso o ouvido venha a "travar", suba até que
a sensação passe e volte a descer, equalizando constantemente. Um fato
curioso é que muitas vezes o indivíduo segue mergulhando com dor, que
passa após algum tempo, pois o ouvido médio, já inflamado, se enche
de líquido. Após o mergulho vem a sensação de surdez e de água no ouvido.
O barotrauma do ouvido médio pode ocorrer durante a subida, quando mergulhamos
resfriados, ou usamos descongestionantes cujo efeito passe durante o
mergulho, o que chamamos bloqueio reverso. Se você vier a ter um bloqueio
reverso, desça alguns metros e volte a subir lentamente, fazendo movimentos
laterais com o pescoço. Os seios paranasais, (ou seios da face) são
cavidades distribuidas na face e no crânio, forrado de tecido mucoso
nasal. Temos os seios da face (frontal e sinusal) e internos na cabeça
(etmoidal e esfenoidal) que são equalizados da mesma forma, através
da manobra de Valsalva. Todos seios paranasais podem sofrer barotraumas,
embora mais raros, pois a forte dor impede que o mergulhador desça.
Também em graus variados, pode gerar desde uma sensação de peso até
hemorragias, com dor na área afetada. É importante lembrar dos seios
etmoidal e esfenoidal. Estes podem causar dores de cabeça vagas, pouco
relacionadas pelo mergulhador. Cuidado, infeções de vias aéreas, rinites
e outros quadros acabam dificultando a equalização do ouvido médio e
dos seios paranasais. Não mergulhe se estiver com alguma das condições
acima.
O uso de descongestionante pode levar a bloqueio reverso, tanto no ouvido
médio, como nos seios paranasais. Um quadro quase pitoresco é o barotrauma
da máscara (ou facial), que ocorre quando não equalizamos o espaço aéreo
artificial criado pela máscara. Com o aumento de pressão na descida,
a máscara aperta gradualmente a pele da face, causando uma sensação
de pressão na face. Os vasos sanguíneos da face começam a se romper,
causando um hematoma. Muitas vezes ocorre hematoma no branco dos olhos
(conjuntiva). O problema é que o processo todo é indolor, e muitas vezes
o mergulhador sai da água sem perceber nada, até que vira motivo de
chacotas, com a tal "face de guaxinim" e o caso se resolve sozinho com
muitos dias de cara roxa (aliás, muda de cor). Um detalhe, já vi instrutores
mencionando que os olhos poderiam saltar da órbita, o que não passa
de tremenda mentira.
Uma forma de barotrauma é a hiperdistensão pulmonar, aliás a doença
mais grave e felizmente mais rara do mergulho autônomo. A hiperdistensão
ocorre durante a subida, quando o mergulhador não deixa que o ar saia
naturalmente dos pulmões. Muitas vezes isto ocorre por falha técnica
ou stress, mas certas doenças podem precipitar a condição, como a asma.
O quadro é variável, mas pode gerar quatro situações:
1. Embolia aérea: bolhas de ar na circulação arterial, que podem obstruir
a circulação cerebral, condição gravíssima.
2. Pneumotorax: Escape de ar entre o pulmão e a caixa torácica, fazendo
que o pulmão afetado diminua sua capacidade. 3. Enfisema subcutâneo:
Escape de ar por baixo do tecido gorduroso, normalmente acima da clavícula.
4. Enfisema mediastinal: Escape de ar à volta do coração. Mais um detalhe,
há casos descritos onde o acidente ocorreu de pouco mais de três metros
para a superfície. É difícil imaginar que esta pequena variação de pressão
possa gerar tal problema.
Para entender o que acontece, imagine que seu alvéolo pulmonar é uma
bola mucha macia, com uma válvula de enchimento, mais dura. Se você
expandir a bola rapidamente, toda a sua circunferência irá expandir,
exceto a área do bico. Isto poderá fechar esta área, impedindo o escape
de ar. É importante lembrar que a vítima pode apresentar todas as condições
acima, e que é fundamental prevenir a hiperdistensão pulmonar, usando
a regra básica mais importante do mergulho autônomo: NUNCA PRENDA A
RESPIRAÇÃO ENQUANTO ESTIVER UTILIZANDO AR COMPRIMIDO.
Um cuidado deve ser exercido quando o mergulhador faz a prática do exercício
de subida livre de emergência. Embora muitas pessoas utilizem uma técnica
um tanto discutível, de exalar sem o regulador na boca, a mesma não
tem qualquer fundamento técnico ou médico e a inalação acidental de
água ou um espasmo podem precipitar uma embolia aérea. A técnica correta
consiste em exalar continuamente através do regulador, que permite a
exalação num fluxo adequado e protege o mergulhador da condição antes
descrita. Vale a menção: exercício de subida livre, e não rotina. Mergulhadores
não devem, sob qualquer circunstância, permitir propositalmente que
seu ar pulmonar acabe debaixo da água.
Um barotrauma que não permite equalização é o barotrauma dental, causado
quando se formam cavidades geradas por cáries, material odontológico
que retraí ou ainda tratamento de canal mal feito. O quadro é bastante
doloroso e pode ocorrer tanto na descida como na subida. A prevenção
se faz com visitas periódicas ao dentista, fazendo-o saber que está
tratando de um mergulhador. Outro barotrauma por espaço artificial é
o barotrauma da roupa seca. Como qualquer espaço aéreo, a roupa seca
deve ser equalizada com ar durante a descida, e ventilada durante a
subida. A condição é muito rara, pois quando o mergulhador desce com
a roupa seca, é quase impossível se mover se esta não for equalizada.
Existem barotraumas mais raros, que evitarei mencionar por falta de
espaço. Apenas uma curiosidade com respeito a barotrauma intestinal
ou de vísceras: a menos que o mergulhador tenha alguma condição cirúrgica
prévia ou doença, qualquer gás produzido no aparelho digestivo tem duas
vias naturais de escape. Obviamente não é confortável ingerir alimentos
fermentativos e permitir a expansão deste gás na volta do mergulho,
pois a coisa pode ficar "explosiva" por perto. Para finalizar, barotraumas
são condições facilmente evitáveis, com boa técnica e sem teimosia.
Bons mergulhos.