Apneia
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‘3 Minutos e 45 Segundos    a 62 metros na apnéia,

 

A Mágica Sintonia entre Alguns Homens e as Águas de Noronha

A água é de um azul hipnotizante. Dentro dela, pode-se enxergar em dias claros, a até 50 metros de distância. E há muito o que se ver: cardumes de peixes coloridos, arraias, tartarugas, pacíficos tubarões, belos recifes de coral. Às vezes, os amáveis golfinhos rotadores, símbolos da ilha, fazem seus saltos acrobáticos, girando sobre si mesmos para se exibir aos passageiros dos barcos de passeio.0 fantástico do fundo do mar de Fernando de Noronha, contudo, não é privilégio exclusivo de todos esses seres marinhos. Sucedem-se na ilha gerações de homens que vivem o fundo do mar com a mesma naturalidade dos peixes: são os praticantes da apnéia, uma modalidade de mergulho sem o uso de equipamentos, onde o que conta é só o fôlego e a concentração de cada um.

A tradição da apnéia em Noronha remonta aos primórdios da ilha, quando os primeiros habitantes desciam ao fundo do mar para pescar Nas últimas décadas, porém, dois nomes se destacaram. Um deles é o de Severino Rodrigues dos Santos, o Biu Guarda, 68 anos. Ele chegou a Noronha em 1951, para lidar com os rebanhos de gado da ilha. Cinco anos depois, começou a mergulhar E não parou mais. Suas façanhas no mar (como a jamanta gigante que enfrentou nas águas da Praia do Boldró) ainda hoje são comentadas pelos ilhéus, mas também lhe renderam o andar torto e desajeitado, fruto de dois acidentes. Biu costumava mergulhar com outro mito da ilha Júlio Venâncio Pereira, o Júlio Grande, que morreu no ano passado depois de passar boa parte de sua vida solitário na Ilha Rasa, plantando e pescando "Eu e o Grande descíamos quase todo dia a 35 metros. Num bom dia, conseguíamos quase 100 quilos de peixe, recorda Biu.

Como a caça submarina está proibida na ilha, os praticantes da apnéia estão desaparecendo de Noronha. Um dos últimos remanescentes é Daniel Ferreira Silva, 23 anos, nascido na ilha e mergulhador desde os 6 anos. Um de seus pontos preferidos de mergulho é uma corveta naufragada nas águas defronte ao Porto de Santo Antônio. No começo deste ano, Daniel quebrou ali um recorde impressionante. Usando apenas uma mascara, ele desceu a 62 metros de profundidade. E passou incríveis 3 minutos e 45 segundos no fundo do mar, Já vi duas tartarugas imensas acasalando sobre o fundo de areia, a 20 metros de profundidade. É algo maravilhoso. Por isso, vou ao fundo do mar para contemplar Não penso em quanto tempo vou ficar sem respirar Me sinto à vontade lá", explica, misterioso. Daniel é de fato uma figura singular Conversa com as pessoas sem encará-las. Parece estar sempre olhando para o mar e se sentir mais à vontade no meio dos peixes e golfinhos do que das pessoas. Não é de todo estranho para quem, como ele, sempre viveu num lugar como Noronha.