Diabo do Peixe
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           Cadê o Diabo do Peixe ?

Todo caçador submarino, especialmente aqueles com alguns anos de experiência, percebe que a quantidade de peixes nos pesqueiros tem diminuído substancialmente. Quando comecei a mergulhar, nos idos de 1978, os cardumes de budiões azuis (com uma média de peso de 6 a 7 Kg) eram uma presença constante. O navio “Cabo Frio”era temido como um local extremamente perigoso e misterioso. Na época, o navio abrigava extensos cardumes de badejos, caranhas e dentões, sem falar dos olhos de boi, dos cabeçudos e de meros monstruosos que faziam a “tenda” de morada. Era uma perda de tempo atirar em sororocas e quem matava um budião azul era imediatamente taxado de “paneleiro” (e outros adjetivos mais intensos) pelos colegas. Este parágrafo está começando a se tornar um pouco nostálgico, tipo “nada como os bons e velhos tempos” resmungado por um velho saudoso. Mas isto não deve nos desviar do tema deste artigo e da pergunta: Então aonde foram parar os peixes?

 

O tema favorito utilizado para molestar um caçador submarino era a colocação de que o esporte era uma prática predatória. Os caçadores negavam isto dizendo que outras práticas, como a pesca com bomba, o uso de redes, etc é que eram práticas predatórias, e que o volume de peixes removidos via caça submarina era insignificante, etc. A verdade é que a caça submarina é uma atividade predatória na medida em que o caçador funciona como um predador no sentido ecológico da palavra. Por exemplo, a atividade do caçador submarino pode ser comparada com a atividade de tubarões (que formam o topo das cadeias alimentares marinhas). Tudo bem, mas então qual é a magnitude do impacto?

 

Um exemplo que era dado em defesa da caça submarina consistia em comparar a produção de um barco camaroneiro (que remove várias toneladas de peixe por dia) com o produto da pesca de um caçador submarino (de uns poucos quilos por dia). Na verdade, esta comparação é totalmente inadequada pelas seguintes razões:

 

· os tipos de ambiente em que os barcos camaroneiros pescam é totalmente diferente daquele utilizado pelos caçadores submarinos, principalmente em termos de produtividade, ou seja, a lama de estuários (onde ocorrem os camarões) é centenas de vezes mais produtiva do que os fundos de coral/alga calcária/rocha utilizados pelos caçadores. Isto quer dizer, que o ambiente produz muito mais quilos por unidade de área no primeiro caso. Há razões técnicas para isso mas não vou explicá-las agora (tomaria muito tempo);

· outra diferença é que está se comparando esforços diferentes de uma maneira  uniforme. Não é 1 caçador que esgota o pesqueiro mas vários agindo de modo contínuo por um período de tempo longo (alguns meses/anos, dependendo do esforço de pesca).

Há ainda uma terceira razão, a falácia de que os peixes estão distribuídos de modo uniforme no fundo marinho. Todos sabemos que os peixes se concentram em áreas limitadas do fundo, porque são áreas que contêm uma boa variedade de hábitats (buraqueiras) e peixes menores (iscas). Daí a existência dos pesqueiros que descobrimos com tanto prazer! Ao concentrar-se o esforço de pesca sobre estas áreas, removemos a maior parte dos peixes que habitam a região.

 

Na verdade, em estudos realizados no Mediterrâneo, Ilhas Canárias e Austrália ficou provado por A+B, que a caça submarina é responsável pela redução drástica de estoques pesqueiros onde ela ocorre de modo contínuo. Aí vocês podem perguntar: “será que esse cara é maluco? Crucificar a caça submarina num jornal da FCSEBa ?” Garanto que não tenho a menor intenção de ser linchado. Na verdade, a intenção deste artigo é bem outra: lançar o conceito de sustentabilidade. Não adianta cair na velha retórica e discutir se a caça submarina é predatória ou não, porque qualquer pessoa munida de dados pode provar que ela é predatória. Então a caça submarina deve ser banida?

 

Acho, que o caminho é um pouco mais complexo do que isso. Ele passa inicialmente, pelo amadurecimento de nossa atitude. Ninguém quer banir a caça submarina! E há uma premissa básica: para que ela continue têm que haver peixes! Sem peixes ela se auto-bane (calaboca Magda!!!!!).

 

O negócio é o seguinte: a solução passa pelo uso sustentável dos recursos pesqueiros ou trocando em miúdos, só se deve retirar de um pesqueiro uma certa quantidade de peixes, deixando lá uma quantidade suficiente para que eles se reproduzam e cresçam. Só devem ser abatidos peixes que atingiram a idade reprodutiva e tiveram a chance de se reproduzir deixando uma prole. Certas espécies (como por exemplo os budiões azuis são essenciais á manutenção do hábitat - uma espécie de faxineiros - e não deveriam ser molestados nunca). E finalmente, todos os caçadores deveriam ter uma certa consciência ambiental imbuída pelos próprios colegas, e por que não? pela própria FCSEBA.

 

O parágrafo acima é muito lindo, mas obter o conhecimento necessário para poder estabelecer qual é a quantidade certa de peixes a ser removida de uma área é uma tarefa dantesca que requer muita informação de boa qualidade. Na verdade, no estado atual de nosso conhecimento ninguém pode responder a essa questão. No entanto adivinhem quem pode ter um papel fundamental na melhoria do nosso conhecimento sobre o manejo sustentável de nossos pesqueiros ? Nós próprios, os malditos caçadores submarinos! Na verdade temos o dever de fazer com que esse conhecimento progrida e estamos em uma posição ideal para conseguir.

 

   A FCSEBA está tomando a primeira iniciativa nesse sentido. Todos os resultados de campeonatos até hoje vão ser destrinchados, analisados estatísticamente, para que se comece a formar uma idéia dos recursos pesqueiros no litoral de Salvador. Essa deverá ser a base para que se possa fazer uma avaliação objetiva e clara da situação , e se possa pensar em medidas para melhorar a condição de nossos pesqueiros. Afinal de contas, quem é que não gostaria de chegar numa pedra carregada de dentões, badejos, caranhas, meros e outros peixes, como nos “bons e velhos tempos” ?

Pablo Alejandro Cotsifis - Biólogo e Caçador Submarino


 




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