Thalassa
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Prezado leitor,

 Objetivamos com esta obra transmitir-lhe noções elementares acerca da caça submarina como modalidade desportiva, de maneira didática e estimulante. Conceitos de técnica, fisiologia, segurança e até mesmo preservação ambiental fazem parte deste trabalho.

 Acima de tudo, intencionamos transmitir-lhe o ideal de respeito e cuidado com o meio marinho. Respeito este que advém de milhares de anos e remonta a época dos povos antigos, que temiam e desconheciam os limites de dimensões e vida no mar.

 Os gregos chamavam o mediterrâneo de Thalassa. Como os romanos posteriormente denominaram-no de Nostrum Mare. O conceito etimológico da palavra começou a se confundir com o próprio conceito de mar, chegando a ser denominada a ciência que estuda o mar, no século XIX de “talassografia”.

 É em homenagem a estes povos que há milênios admiram e respeitam o mar, como ninguém, tendo com este uma intimidade invejável, que nominamos nosso livro de Thalassa e intencionamos transformá-lo em talassomaníacos.

 Boa sorte e bons mergulhos !

 O Autor.


Breve Histórico Sobre a Caça Submarina.

 A História da caça submarina, remonta-se a história do próprio homem. Afinal, não são poucos os registros pictóricos antigos, em cavernas espalhadas pelo mundo, que descrevem a intimidade do homo sapiens com o meio subaquático. A exemplo disto podemos mencionar o achado arqueológico das ruínas do palácio do rei persa Assurbanipal II, dentro das quais vislumbra-se a pintura, procedente do ano de 880 a.c., deste monarca capitaneando seu exército, por debaixo d’água.

Na Idade Antiga portanto, o homem  demonstrou uma aproximação significativa com o meio subaquático. Luiz Ávila Recatero, em sua rica obra Por Debajo de La Cota Cero, com muita propriedade afirma que na Grécia e Roma, havia milícias de mergulhadores treinados para o combate subaquático e a desarticulação dos navios de guerra, fundeados. Tais milícias, chegaram a obter grandes conquistas militares, “distinguindo-se do restante da sociedade com incisões nas orelhas e nariz, que serviam como uma espécie de distintivo entre os outros homens do mar e aqueles mergulhadores, aos quais, na Grécia, se rendia tributo e admiração.” (Por Debajo de La Cota Cero, Editora Hispano Européa, pag. 20, Barcelona, Espanha.)

Foi nesta época que nasceram os Urinatores. Mas o que foram os Urinatores ?

Notadamente, nesta época, entre os povos gregos e romanos, houve um direcionamento dos conhecimentos e afinidades submarinas para fins militares, o que fizera surgir unidades organizadas de combate compostas por jovens atletas, robustos guerreiros, que dominavam como ninguém conhecimentos e habilidades de natação e mergulho.

Os Urinatores foram portanto, a mais eficaz tropa de combate subaquático treinada até então. Esses jovens romanos, propiciara a seu rei conquistas de grandes batalhas através de seus feitos memoráveis, deixando atônitos seus inimigos que desconheciam seus recursos bélicos submarinos.

Uma de suas mais belas atuação foi durante a guerra entre Julio César e Pompeu, no Porto de Orique, Mar Adriático, enviando mensagens, armas e víveres para a esquadra de César e posteriormente, cortando as amarras das embarcações inimigas e levando-as durante a calada da noite, para a praia, onde tropas julianas esperavam preparadas para o assédio. Essa milícia alcançara tamanho grau de operatividade que contra eles foram criadas as mais diabólicas engenhocas e aparatos de defesa. Essas iam de redes dispostas em torno dos portos, repletas de serpentes e sinetas de alarme,  até rodas imensas,  que  funcionavam submersas, repletas de lâminas ao seu redor, com o intuito de mutilar estes aquanautas guerreiros. Tudo isso gerenciado por sentinelas armados de enormes tridentes pérfuro-cortantes.

Com o declínio do Império Romano no entanto, os Urinatores foram obrigados a realizar trabalhos como resgate de embarcações afundadas, operações em portos, ou troca de mensagens entre ilhas, o que viera a culminar na formação dos primeiros mergulhadores profissionais da história.

Sua última atuação como guerreiros fora marcada pelo grande combate subaquático contra os turcos otomanos (1565) que enviaram a Malta uma tropa de nadadores tão bem treinados quanto os próprios Urinatores, mas que acabaram sendo derrotados por essa inexpugnável organização romana. Na ocasião, segundo os historiadores da época, a água tornara-se roxa em lugar do azul translúcido, tamanha a baixa de solados no violento conflito.

Indispensável ainda acerca de grandes feitos subaquáticos na idade antiga, mencionar-mos Antonio Ribera Jordá, em sua brilhante obra “La Pesca Submarina”, que citando Heródoto nos relata:

“O ‘Pai da História’, o grande historiador Heródoto, nos traz um dos primeiros relatos sobre a arte da imersão. É a assombrosa história de um pai e uma filha, Escilias de Escione e Ciana quem, depois de haver cortado as amarras da frota persa encurralada por Jerjes, porcorreram por baixo d’água a enorme distância de oitenta estádios (14.800m) até reunirem-se a frota grega que encontrava-se ao largo de Artemision. Unicamente admitindo que tanto escilias como sua filha dispuseram de algum tipo de aparelho de imersão autônoma, ou pelo menos, de um tubo respirador mediante o qual poderam nadar semisubmersos, podemos explicar esta extraordinária façanha. Como prêmio a sua esforçada valentia, suas estátuas em ouro foram erguidas em Delfos.” (Antonio Jorda, in La Pesca Submarina, Editorial Hispano Europea, 4ª Edição, pág. 17).

Como podemos ver, o homem há tempos demonstra sua afinidade com o meio subaquático. E estas realizações acima relatadas, foram as precursoras para o desenvolvimento destas atividades. Da mesma forma podemos depreender que a Europa, continente denominado berço das civilizações, foi a precursora das atividades de imersão, detendo até os nossos dias maior tradição na caça submarina como modalidade desportiva, sendo lar de grandes atletas.

Assim, podemos dizer que um dos primeiros caçadores submarinos de renome na história contemporânea fora o escritor norte americano Guy Gilpatric, que nos anos 20 (vinte), residindo  na Europa, impermeabilizou óculos de aviador e aventurou-se em incursões subaquáticas em busca de peixes, na costa francesa.

A partir de então, surgiram os grandes nomes deste esporte, juntamente com as competições:  na Espanha: Noguera, Marti, Gomis, Amengual...; na Itália: Catalani, Falco, Santoro...; no Brasil: Hermany, Santareli, Borges e Lenz...  Mister faz-se que mencionemos que além destes países citados como tradicionais nesta prática desportiva, temos também os EEUU, o Chile, a França, a Austrália, dentre outros.

Fundamental que mencionemos a brilhante contribuição que nos deram especialmente dois grandes desportistas em caça submarina, no Brasil: Bruno Hermany  e Américo Santarelli  o primeiro conquistando campeonatos estaduais, nacionais e, duas vezes, o Campeonato Mundial, nos anos de 1960, na Itália, e em 1963, no Rio de Janeiro, o segundo

Não poderíamos deixar de citar ainda um nome que fora um divisor de águas na história das atividades subaquáticas, o francês de Cóte-da-zur, Jacques-Yves Cousteau, ou JYC, como era chamado pelos íntimos, o qual antes de falecer, foi considerado o maior explorador vivo do mundo.

A despeito do que muitos imagina, este célebre pesquisador teve seu primeiro contato com o meio subaquático mediante a caça submarina. Aos  26  anos de  idade  conheceu   juntamente   com  seu inseparável amigo Fréderic Dumas, Guy Gilpatric. Isso mesmo, o escritor norte americano que pescava com óculos de aviador, já havia algum tempo nesta época, abatendo grandes garoupas com arpões.

Axel Madsen, em sua fascinante e rica obra sobre a vida de Jacques Cousteau, descreve como ninguém este momento da vida do oceonauta:

“A capacidade de realmente ver embaixo d’água, com óculos de pescadores de pérolas dos Mares do Sul, ou com óculos de aviador, causou uma impressão indelével em Cousteau ao 26 anos de idade. ‘às vezes temos a sorte de entender que nossa vida foi mudada’, observou ele mais tarde. ; isso me aconteceu naquele dia de verão em que meus olhos se abriram para o mundo que havia sob a superfície do mar.’” ( axel Madsen in Cousteau, uma biografia, Ed. Campus, 1989.

O inventor do aqualung, (ou scuba: Self-Contained Underwater Breathing Apparatus) deixou aos praticantes das atividades subaquáticas um infindável legado de experiências, informações e respeito ao meio marinho. Legado este que não devemos desprezar e transmiti-lo aos que nos cercam.


Este texto compõe a obra intitulada “Thalassa - noções de caça submarina”  de autoria de Antonio Ma. P. Peres Jr., ex-Presidente, e atual Conselheiro da FCSEBa. (Federação de Caça Submarina do Estado da Bahia) sendo a este reservados todos os direitos autorais e proibida sua reprodução e comercialização sem expressa autorização do autor.